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A Escola no Ciberespaço

O ciberespaço é uma dimensão fundamental do mundo globalizado. Enquanto lugar de sociabilidade e consumo, ele nos insere em circunstâncias que ultrapassam as fronteiras tradicionais das comunidades e dos estados. Contando hoje com economia interna e psicologia própria, sua história recente deriva das sucessivas revoluções tecnológicas provenientes das aplicações da microeletrônica no campo da comunicação, que aboliram as fronteiras do espaço e redimensionaram nossa experiência do tempo. Nesse novo mundo, há certa sensação de desorientação, que se conjuga com ao menos um consenso: todos sabem que o futuro não será mais o que costumava ser (BRIGGS, 2004; SEVCENKO, 2001).

Diante do intenso fluxo de mutações que caracterizam a experiência em sociedades tecnológicas, as instituições educativas ainda estão em busca de encontrar sua posição e realizar seu dever quanto às novas gerações. Nesse sentido, o objetivo desse artigo é apresentar alguns aspectos problemáticos dessa discussão, e oferecer um exemplo de aplicação prática de um projeto educativo em ambiente virtual.

O aspecto mais marcante e repleto de consequências no que diz respeito às redes sociais é que elas representam uma sociedade configurada pela forma horizontal do laço social. Esse é um dos pontos problemáticos para que instituições como a escola encontrem ali o seu lugar, pois são instituições ainda estruturadas pelas relações verticais de identificação herdadas das sociedades industriais e disciplinares do passado.

Os efeitos da tecnologia sobre o comportamento humano têm provocado reações que vão da demonização à apologia. A polarização desse debate já estava consolidada no início dos anos 1990, opondo, de um lado, os que pensam a tecnologia como uma força que amplia a liberdade humana, conferindo mais poder para o povo e mais coperação internacional e os que a definem como “poluidora do espírito humano” (BRIGGS, 2004, p. 313)(Leia nota abaixo deste texto). Com efeito, nos últimos anos parece ter predominado uma corrente intelectual que demoniza as tecnologias, argumentando que elas emburrecem as pessoas, comprometendo a socialização e prejudicando o aprendizado e a transmissão do saber.

Poderíamos, evidentemente, rebater muitos argumentos pessimistas com exemplos concretos. Com frequência, ouvimos dizer que a internet faz o aluno ler e escrever menos, mas o que me parece é o oposto, ou seja, a leitura e a escrita são recursos essenciais para quem usa o computador e interage nos ambientes virtuais. Nesse sentido, se algo mudou no lugar de quem lê e escreve, essa mudança deve ser localizada nos contextos de interação que o computador possibilita. Quanto ao argumento de que a tecnologia inibe a socialização, poderíamos dizer que a presença física permenece insubstituível – em que pese o projeto da neurociência de que no futuro as sensações físicas também deixarão de conhecer a barreira do espaço. Outro argumento comum é o de que a tecnologia massifica gostos e padroniza culturas, mas olhando com um pouco de atenção, o que percebemos, pelo contrário, é uma intensa busca pela diferença como fator de subjetivação e constituição do laço social. Por fim, quanto ao argumento de que os jovens teriam deixado a política de lado, basta reparar no protagonismo que as redes têm desempenhado nos principais movimentos sociais dos últimos meses, da Primavera Árabe ao Occupy Wall Street, dos subúrbios de Londres aos movimentos estudantis latinoamericanos.

Em suma, o debate permanecerá, mas as escolas já sabem que o caminho de sua renovação passará, inevitavelmente, pela formulação de um diálogo com as tecnologias. Nesse sentido, comentarei em artigo separado (linkar para o primeiro texto sobre redes sociais) uma experiência realizada com meus alunos do 3º ano do Ensino Médio através do Facebook, que é hoje a maior rede social em operação, conectando aproximadamente 800 milhões de pessoas ao redor do Globo.

As redes sociais são hoje a porta de entrada para os conteúdos, tendo já superado os portais e os sites de busca. Para se ter uma ideia, segundo dados do Facebook, o jornal americano Washington Post aumentou em 280% o número de seus acessos entre maio e dezembro de 2010 depois que passou a utilizar a rede social como porta de entrada para as notícias. Do mesmo modo, o Huffington Post aumentou em 22% os acessos e aumentou para oito minutos o tempo médio de permanência no site (DINIZ, 2011; VEJA, 2011, p. 93).

Nesse sentido, seria plausível supor que o educador pode ter aí, ele também, uma boa porta de entrada, não?

NOTA DO PROFESSOR
A Revista Época de 28/10/2011 trouxe como reportagem de capa uma nova onda de pensadores pessimistas quanto aos efeitos da internet sobre os aspectos cognitivos e comportamentais. O texto concentrou-se em autores que centram sua artilharia para deteriorar as mídias, como Nicholas Carr, autor de “Os superficiais – o que a internet está fazendo com nossos cérebros”, onde denuncia a emergência de uma geração menos inteligente, superficial e distraída; Mark Bauerlein, que atinge o nível do insulto em seu “A geração mais estúpida”, e comenta pesquisas feitas com alunos de Ensino Médio que demonstram aumento do tempo que passam na internet em contraposição ao tempo que dedicam ao estudo (interessante notar que a pesquisa citada não considera, nem discute, a internet como meio de aprendizagem, o que certamente mudaria seus resultados). Embora a revista apresente alguns otimistas, tal como Cathy Davidson, autor de “Now you see it” (2011), e Clay Shirky, autor de “A cultura da participação” (2010), a perspectiva negativa do efeito da internet prevalece, carecendo de perspectiva histórica e problematização mais complexa.

 

Por Rodrigo Abrantes da Silva

Publicado originalmente no Portal Direcional Escolas, em novembro de 2011. 


 

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