Palavra do Diretor

Um pouco de nossa estória: um caso de amor

Um pouco de nossa estória

O nosso ensino médio (antigo segundo ciclo) foi autorizado a funcionar no início dos anos 70.

Fazia uns dois anos que estávamos funcionando com o colegial, quando atendemos a um pai que procurava matrícula para sua filha. Após o atendimento de praxe, o pai revelou que a filha tinha um problema: era cega (na época não se usava “deficiente visual”).

Contou-nos, também que a filha já nascera com essa deficiência, portanto nunca havia enxergado.

Foi a primeira vez que nos defrontamos com tal situação. Dado o inusitado da situação, ocorreu-nos explicar ao pai que a escola não estava preparada para receber alunos com essa deficiência e, mais do que tudo, temíamos que não pudéssemos dar à aluna a formação e a instrução que era nosso objetivo. Imaginávamos que o que iríamos dar a ela e a forma de apresentar a tornaria ainda mais infeliz.

Concluímos nossa conversa, dizendo ao pai que certamente ele encontraria escolas mais adequadas do que a nossa, preparadas para receber a sua filha.

Passados alguns dias apresentou-se na escola uma jovem senhora muito nervosa, querendo falar com a direção.

Ao ser questionada sobre o assunto que a trazia até a escola, disse que era da “Fundação do Livro do Cego” e queria saber por que a escola havia recusado uma aluna cega.

Atendi a referida senhora, que se mostrou muito agressiva em relação à atitude da escola.

Disse-me: “Ah, então é o senhor o diretor que não quer cegos aqui?. Eu conheço pessoas como o senhor. Gostariam que existisse um “cegário” onde todos os ceguinhos fossem confinados, para não amolar ninguém.”   

Embora a forma hostil, expliquei à senhora que, bem ao contrário, a escola não queria evitar a aluna, apenas não via como acolhe-la para  dar o que ela estaria pagando para receber. Ela insistiu em que a escola aceitasse a aluna, com o compromisso de vir à escola a cada quinze dias, para pegar anotações dos colegas de classe e transformá-las em textos em braile, permitindo o estudo da aluna.

Dada a insistência permiti a matrícula da aluna, cujo nome era Ana, embora cheio de incertezas.

Entretanto toda incerteza se dissipou quando vi Ana pela primeira vez. Uma menina esguia, aparência frágil, com cabelos longos e um semblante alegre, dirigia-se às pessoas com voz firme, embora meiga. Apresentava uma beleza que transcendia às feições. Numa palavra: encantadora.

Confesso que a figura de Ana me fez engolir em seco.

Entendi, de pronto, a insistência das pessoas em lutar por ela.

Soube depois que Ana era órfã de mãe e vivia com a madrasta. Era obrigada a fazer o serviço da casa e quando quebrava algum utensílio, apanhava da madrasta.

As aulas começaram e Ana foi colocada em uma classe de 1º colegial onde havia 28 alunos.

O que se passou nessa classe foi algo fantástico!

A presença de Ana, que temíamos fosse causar algum constrangimento na classe, foi, bem ao contrário, motivo de alegria.

Ana mostrou-se uma pessoa dotada de espírito e bom humor. Numa expressão “alto astral”.

Os colegas sentiram isso, e Ana passou a ser admirada por todos. Destacavam a aplicação daquela moça que embora tivesse muitas limitações (para ir ao banheiro, precisava de auxílio de colegas), assim mesmo nunca perdia o sorriso, a palavra doce, o gesto gentil. 

A presença de Ana na classe funcionava como um catalisador de emoções positivas.

Todos os professores tinham prazer em dar aulas na classe.

Ana cursou os três anos do colegial conosco.

A promessa de transformar as anotações de aulas em braile não foi cumprida com a frequência prometida. Esse fato foi superado pelo esforço dos colegas, que se uniram para ajudá-la.

Ana datilografava numa máquina portátil;  era a forma de ela se comunicar, escrevendo.

Para realizar as provas, a escola escalava uma auxiliar para ler a prova e Ana datilografava as respostas.

Sucediam-se os casos contados pelos professores, de manifestações de Ana durante as aulas, que a tornavam mais e mais amada por todos.

Certo dia, dando aula na sua classe tive que usar a palavra vermelho. Então me ocorreu que tipo de resposta teria aquele cérebro que nunca vira a luz, perante a citação de uma cor.

Ana manteve-se em silêncio, com o pensamento distante, certamente procurando alguma resposta.

Afinal o mundo de cada um é formado pelas imagens que ele recebe e que ocupam o seu cérebro. Se fecharmos os olhos, ainda assim essas imagens existem, podemos fazê-las movimentar-se, ter vida, a partir da nossa vontade. Elas são em última análise o mundo que conhecemos.

Que tipo de substituição aquela moça fez para montar o seu mundo, apenas pelo som e pelo tato?

Pensando em tudo isso, crescia a nossa admiração por Ana.

Ela enfrentou desafios, esforçava-se para vencer num mundo que não era o seu. Podia ter optado, como tantos outros deficientes, por exercer tarefas simples.

Ao contrário, diferente do que se poderia supor vendo aquela figura frágil, ela, cheia de coragem, quis estudar e se destacou no meio de bons alunos, dando sempre lições de aplicações, alegria e esperança.    

Aprendemos muito. Certamente ela nos ensinou muito mais do que nós a ela. Em todos os anos as classes de Ana apresentavam o melhor desempenho em comparação às outras.

Ao final do curso os colegas prestaram uma homenagem a Ana. O colega que discursou disse: “Temos que homenageá-la pois você nos mostrou que nós não tínhamos o direito de ficar na “fossa”, pois você, com mais dificuldades do que nós, jamais reclamou de nada e nunca perdeu sua alegria e seu sorriso. Obrigado Ana! Vamos levar seus ensinamentos por toda nossa vida.”

E assim foi a passagem de Ana pela nossa escola.

Tivemos notícia de que ela prestou vestibular para Direito e entrou. Depois perdemos o contato.

Outros alunos deficientes visuais frequentaram o Joana e exercitamos com eles os ensinamentos que aprendemos com Ana.  

A propósito, estudou no Joana, também, o aluno Ricardo Tadeu Marques da Fonseca, que apresentava uma deficiência progressiva na visão, o que acabou fazendo-o perder a visão completamente.

Ricardo estudou conosco a partir da então 7ª série, até completar o 2º Grau.

Hoje Ricardo, ou melhor, Doutor Ricardo, é o  primeiro desembargador cego do Brasil e atua na Justiça do Paraná. Parabéns, Dr. Ricardo!

 


 

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